sábado, 24 de setembro de 2016

UMA CAMINHADA POR APOCALIPSE.



1.1-8: PRÓLOGO
Neste breve texto introdutório nos é apresentado os pormenores essenciais, ou seja, João recebeu uma ”revelação”  [apocalypsis, no grego]. De Cristo sobre o que está prestes a acontecer, que ele chama de “as palavras desta profecia”, oferecendo uma bênção àquele que a lê em voz alta e aos ouvintes nas comunidades cristãs (1.1-3). Então, ele apresenta sua revelação na forma de uma às sete igrejas, com as devidas saudações e uma doxologia – a Cristo!
1.9 a 3.22: AMBIENTE HISTÓRICO
No texto em questão somos apresentados aos três principais personagens do drama: João, Cristo, a Igreja. João se situa a si mesmo, em seu exílio, como companheiro de sofrimento dos destinatários da carta, e lhes dá os detalhes de como recebeu a revelação (1.9-11); ele estará presente como o “eu” que vê e ouve tudo o que se segue. Em seguida ( 1.12-16) passa a descrever Cristo como o Senhor da igreja usando uma colagem de ecos de Dn 7.13; 10.5,6; Ez 43.2. Em (1.17-20) o descreve como o Senhor da história, e quando fala do Senhor ressurreto se apropria das palavras que descrevem Deus em Is 48.12.
Finalmente, nos capítulos 2 e 3, Cristo se dirige às sete igrejas revelando seu conhecimento da presente situação delas, em geral exortando-as de alguma maneira, enquanto roga aos que têm ouvidos que ouçam o que é dito, e prometendo recompensas escatológicas para aqueles que saírem vitoriosos do conflito vindouro. A situação das respectivas igrejas varia bastante – há algumas qualidades bem como algumas deficiências-. Tudo é dito à luz da “provação que virá sobre o mundo todo” (3.10).

a- VISÕES INTRODUTÓRIAS: A CENA NO CÉU E NA TERRA [4.1 A 8.5]

4.1 a 5.14: UMA VISÃO DO TRONO CELESTIAL
Antes das condições terríveis na terra serem reveladas, a majestade incomparável e eterna do Deus criador é revelada a João (cap 4). Em resposta a isso vem a visão do Leão de Deus, o Cordeiro que foi morto, e que por meio de sua morte triunfou sobre o dragão na guerra santa (ver cap 12), e que, por causa de sua obra redentora, é adorado juntamente com Deus e considerado digno de desvelar os juízos justos de Deus (cap 5).
As visões contidas neste texto devem ser lidas com muita atenção, pois todo o conteúdo do livro a partir deste ponto deve ser lido à luz delas. 
[Para melhor entendimento é aconselhável a leitura de Ezequiel 1 e Isaías 6.1-3 para ter uma noção dos antecedentes do Antigo Testamento por trás de muito do que é dito em Apocalipse 4. No mesmo sentido deve também ser lidos Gênesis 49.8-12 e Isaías 11.1-11 para o entendimento de Apocalipse 5].
O que João está oferecendo é a perspectiva do céu (onde há louvor e adoração constantes a Deus e ao Cordeiro), a partir do qual os leitores devem enxergar a horrível situação da terra. Isso fica claro pela inclusão da abertura dos sete selos (6.1 - 8.5) na estrutura dessa visão, como os versos 6.1,3,5,7 deixam claro.
6.1 a 8.5: A ABERTURA DOS SETE SELOS.
Mesmo sendo parte da visão anterior, o relato dos sete selos também inicia uma série de três visões - selos, trombetas, taças - todas possuindo a mesma estrutura: "uma série de quatro, uma série de dois, um intervalo com duas visões, e um sétimo elemento.
Na primeira visão, os quatro cavaleiros (adaptados de Zc 1.6) representam a conquista, a guerra, a fome e a morte (= o império que se opõe ao povo de Deus). A série de dois (o quinto e o sexto elementos) também prepara o terreno para o que vem em seguida fazendo duas perguntas fundamentais:
1 - os mártires clamam "até quando"?. E são informados de que a situação irá piorar ainda mais antes do início da melhora [Ap 6.10,11].
2 - Aqueles que recebem o julgamento de Deus também clamam (ecoando Ml 3.2): "Quem poderá subsistir no dia da ira do Senhor"? [Ap 6.17). 
Assim, João recebe um prelúdio geral dos juízos que se seguem.
A resposta imediata a essa última pergunta são aqueles que são "selados" poer Deus (Ap 7.1-8) e as multidões que vieram da grande tribulação - os redimidos do Senhor (Ap 7.9-11).
Enquanto se faz a leitura é fácil observar que a descrição do povo de Deus em 7.1-8 ecoa o acampamento de Israel na formação de batalha em Números 2, e desta maneira preanunciando seu próprio na guerra santa. Isso, por sua vez, leva à próxima descrição do descanso final  deles na presença de deus, que ecoa Isaías 25.8 e 48.10-13. 
A abertura do sétimo selo indica o início da passagem dos sete anjos (Ap 8.1-5). O silêncio visa um efeito. Observe que os juízos prestes a ser revelados ocorrem em resposta direta às orações dos santos.

b- JUÍZOS PRELIMINARES - TEMPORAIS - CONTRA O IMPÉRIO: [8.6 - 11.19.]

A primeira série de desgraças anuncia juízos temporais e parciais ao mesmo tempo que prenuncia o juízo final (caps 16;18). Isso fica claro pelo fato de que as primeiras quatro são adaptações evidentes das pragas do Egito, que foram juízos temporais, não finais, contra o Egito, e pelo tema repetido do "um terço".
8.6 - 9.21: OS JUÍZOS DAS SETE TROMBETAS
 Observe como esta série de quatro (8.6-13) continua a descrição da ira de Deus do sexto selo, mas agora como trombetas (JUÍZOS DE ADVERTÊNCIA).
Observe como João adapta as três das pragas contra o Egito para se adequar a Roma, que deriva seu poder e riqueza do mar: Granizo (nº 7= Êxodo 9.13-35).
Rio transformado em sangue,  dividido em duas partes - mar e água doce -  (nº 1= Êxodo 7.14-24). Escuridão (nº 9= Êxodo 10.21-29)
A série de duas desgraças (a terceira não é revelada até Ap 18) descreve os juízos em termos mais históricos, aproveitando-se do temor romano às hordas bárbaras (9.1-12 = homens de cabelos compridos), mas descrito em linguagem que remete à praga de gafanhotos de Joel (Jl 1.6; 2.1-5). Isso é representado, em segundo lugar, como uma batalha grande e decisiva (Ap 9.13-19). Mas embora os juízos sejam de natureza temporal e parcial, eles não conduzem ao arrependimento (9.20,21). 
10.1 - 11.19: AS DUAS VISÕES INTERMEDIÁRIAS.
           Essas duas visões nos levam de volta a João e à igreja.
A primeira confirma João em sua tarefa profética (observe especialmente os ecos de Ez 2.9 - 3.3 em Ap 10.9-11), mas observe que ela começa com um anjo poderoso com um pé sobre a terra e o outro sobre o mar, demarcando-os como pertencentes a Deus, não a Satanás e suas bestas (cf 13.1,11).
A segunda visão aponta para o papel profético da igreja, que é cumprir como se esperava, o testemunho do fim dos tempos de Elias e Moisés (cf.11.6), mesmo que isso signifique martírios (versos 7 a 10). Mas em vez da terceira desgraça (prenunciada em 8.13; 9.12; 11.14), a sétima trombeta introduz uma descrição antecipada do próprio fim - mas como já presente: "uma canção de triunfo celebra a consumação do reino de Deus (11.15-19; observe que "aquele que era, que é e que há de vir" [4.8 é agora "aquele que és e que eras" [11.17]; ou seja, aquilo "que há de vir" é descrito como já tendo vindo).

c - O CONFLITO ENTRE A IGREJA E OS PODERES MALIGNOS [12.1 - 14.20]

Esses três capítulos - 12,13,14 - formam o centro absoluto do livro, não apenas literalmente, no esquema geral da narrativa, mas também como a perspectiva teológica (cap 12) e as razões históricas (cap 13) para todo o conteúdo de Apocalipse. 
O capítulo 14, então, prepara o terreno para o restante do livro. 
12.1-17: A GUERRA NO CÉU E SUAS CONSEQUÊNCIAS.
 Observe como as duas visões do capítulo 12 dão a chave teológica do livro. Em sua vinda e ascensão (12.5, a história toda é relembrada retratando-se o início e o fim), Cristo derrotou o dragão (descrito como guerra no céu nos vs 7-11), que agora parte para descarregar sua destruição sobre o povo de Cristo.
Assim, a "salvação" já veio. Satanás já foi humilhado; portanto, "alegrai-vos, ó céus". Mas ainda não é o fim; portanto, "ai da terra". Sabendo que seu tempo é limitado, Satanás irá perseguir o povo do Messias (apontando-se assim para o cap 13), mas será vencido pelos por meio da morte de Cristo e do próprio testemunho que eles dão dela, mesmo que esse testemunho lhes custe a vida.
13. 1-18: AS BESTAS SAINDO DO MAR E DA TERRA.
                    Essa visão apresenta o contexto histórico para o sofrimento deles - profetizando de que maneira Satanás os perseguirá (restrições econômicas e martírio)-, que ocorrerá pela recusa deles em adorar o imperador. 
                  A besta do mar é uma adaptação da quarta besta do mar de Daniel 
(Dn 7.2,7,8,23-25). O que está sendo descrito é Roma, em todo o seu poder aparentemente invencível (observe como em Ap 13.4, o povo parodia o hino do Guerreiro Divino de Ex 15.11), em guerra contra o povo de Deus (Ap 13.7) -- o que conduzirá a muitos martírios (verso 10, ecoando Jr 15.2).
OBSERVAÇÃO: a "ferida mortal" que foi curada (Ap 13.3,12) alude ao ano de 69 d.C, no qual todos esperavam que Roma desmoronasse, tendo sido brevemente governada por três imperadores, um atrás do outro, após a morte de Nero. Mas, o império não ruiu, e isso fazia com que ele parecesse invencível.
A besta da terra representa o sacerdócio do culto ao imperador que florescia na província da Ásia. Observe como aqueles que não carregam o nome da primeira besta (666 é um jogo com o nome de Nero) são isolados economicamente.
14.1-20: RESULTADO DA GUERRA SANTA: VINDICAÇÃO E JULGAMENTO.
           Essa série de visões prepara o terreno para as visões finais, descrevendo primeiro os mártires redimidos como os primeiros frutos que se encontram no monte Sião escatológico (versos 1-5), e então a queda de Roma na linguagem dos juízos proféticos do Antigo Testamento, especialmente aqueles contra a Babilônia (tema que continuará até o final). 
A coleção de breves vinhetas (versos 6-13) desse modo prepara o terreno para o restante do livro, assim como as visões gêmeas de ceifar a terra e pisar o lagar (versos 14-20), que apontam para a futura colheita do povo de Deus e o julgamento de Roma.

d - AS SETE TAÇAS: OS JUÍZOS DE DEUS CONTRA A "BABILÔNIA" [15.1 - 16.21]

                 Essa terceira e última série de juízos distingue especificamente os juízos de Deus contra Roma.
15.1-8: O PRELÚDIO
      Observe como esse prelúdio aos juízos começa com João novamente no céu (cf. caps. 4-6), enquanto os mártires entoam o cântico de Moisés e do Cordeiro, uma primorosa colagem de passagens de todo o Antigo Testamento. Observe também como a série (vers. 5-8) dá continuidade à imagem de 11.19.
16.1-21: A BABILÔNIA É JULGADA
      Observe como essas desgraças ecoam as trombetas, mas sem o qualificador de "um terço". Como nas quatro primeiras trombetas, as primeiras taças são adaptações das pragas do Egito; observe que a terceira (água em sangue) recebe uma resposta imediata em termos da "lex talionis" - olho por olho. Aqui a série de dois continua esse tema. 
O interlúdio nesse caso (v.15,16) é impressionantemente breve e enigmático (um chamado à prontidão e uma referência ao Armagedom), enquanto a última taça de ira repete o terremoto do sexto selo, ao mesmo tempo dá continuidade ao tema da praga (granizo).

e - DESFECHO: O CONTO (ORIGINAL) DAS DUAS CIDADES [17.1 - 19.10)
                          Usando as imagens intensamente evocativas das duas cidades como mulheres que contrastam entre si - Roma como uma meretriz opulenta; a igreja como a noiva de Cristo -, João agora situa o julgamento de Roma contra o pano de fundo dos juízos e da salvação finais de Deus. Observe especialmente que as passagens referentes à cada uma dessas mulheres nos são apresentadas com início (17.3;21.9,10) e fim (19.9,10;22.7-9) semelhantes, e enquanto uma mulher (a queda de Roma) é vista no 'deserto' (17.3), a outra (nova Jerusalém) é vista em um 'monte grande e alto' (21.20). 
17.1 - 19.10: DEUS JULGA A MERETRIZ PELA OPRESSÃO ECONÔMICA
         Observe como essa descrição inicial de Roma como uma grande prostituta montada na besta (capítulo 17) ecoa várias descrições semelhantes de Tiro e da Babilônia nos profetas (Is 23.15-18;Jr 51.6,7). Também é interessante observar que as interpretações de Apocalipse 17.9 e 18, deixam claro quem é realmente a Babilônia. 
João então passa a entoar uma canção fúnebre a respeito dela (18.1-3) seguida de um chamado ao povo de Deus a escapar da "Babilônia" (18.4-8; cf Is 48.20; 52.11; Jr 51.45; etc), e do luto resultante daqueles que participaram nos seus pecados (os "reis da terra" [governadores provinciais], os comerciantes, a frota mercante; Ap 18.9-24). E finalmente vemos o terceiro "AI" (v.8.12;11.14), que por sua vez assume a forma de três "AIS" (18.10,16,19). Eis a única passagem em que João, em geral, abandona o modo apocalíptico para adotar um estilo profético, especialmente no intuito de denunciar a política econômica de Roma, que enriqueceu enormemente à custa dos pobres. Observe como o júbilo no céu é a reação imediata à condenação de Roma (verso 20; cf.12.12a) com ecos de Isaías 25.10, e conclui apresentando mais uma vez a razão máxima para a sua
condenação: "a matança dos mártires" (Ap 18.24).
Observe como o triplo 'ai' é respondido com um triplo 'aleluia' no céu (19.1,3,6). E, assim, João volta à cena no céu (do cap. 4) onde vemos as bodas do Cordeiro e sua noiva, a igreja (19.1-10)
19.11 - 20.15: A ÚLTIMA BATALHA.
        O intervalo entre o "destino" das duas cidades conclui o tema da guerra santa, tanto em Apocalipse quanto na Bíblia como um todo. A descrição do tema forma o pano de fundo final (escatológico) contra o qual o juízo sobre Roma deve ser compreendido. 
        Cristo é desse modo, retratado como um Guerreiro Divino que luta contra a besta, o profeta e o próprio Satanás (19.11-20.15). Observe principalmente como os membros dessa "trindade profana" são lançados, um por um, no lago de fogo (19.20;20.10).  
       Observe como João vislumbra uma separação entre a destruição final das duas bestas e a de Satanás (20.7-10). Isso sugere, junto com a cena nos versos 1-6, que Satanás ainda tem algum tempo depois da destruição de Roma. O evento final é o julgamento daqueles que o seguiram (versos 11-15).
21.1 - 22.11: A NOVA JERUSALÉM: "A NOIVA DO CORDEIRO".
     Estruturalmente, 21.1-8 pertence à "última batalha". Veja como a passagem antevê a cidade de Deus (descrita na visão que começa nos versos 9,10), mas também conclui (v.8) com uma observação sobre aqueles que foram julgados na "segunda morte". Observe especialmente como ela começa com a linguagem de Isaías 65.17-19, com seus "novos céus e nova terra".
         Assim, a visão final de João descreve a cidade de Deus, a nova Jerusalém, descendo à terra, onde ocorrem a restauração do Éden e a reversão dos efeitos da Queda (Ap 21.2-22.6). 
Observe duas coisas: 
                      1- a cidade ecoa a linguagem e as ideias da visão de Ezequiel do "templo escatológico", na qual a glória de Iahweh retorna ao templo (Ez 40.1-43.12). 
                      2- a própria cidade é o templo precisamente porque é o lugar da própria habitação de Deus (Ap 21.3,4,11,22,23; 23.3-5).
Finalmente observe, o quanto 22.1-5 ecoa o Éden restaurado, usando inclusive imagens de Ezequiel 47.1-12.
22.12-21: EPÍLOGO.
                          Essa passagem pode ser considerada um verdadeiro epílogo no sentido de que ecoa numerosos temas do prólogo, pois, assim, como uma conclusão apropriada dessa visão que assumiu a forma de carta, João tanto exorta como convida os leitores originais - e nós - a participar do grande futuro de Deus por meio da vinda de Cristo.

                                      UM BOM ESTUDO A TODOS!
  
Bibliografia: "COMO LER A BÍBLIA LIVRO POR LIVRO. EDITORA VIDA NOVA.
AUTORES: GORDON FEE E DOUGLAS STUART.

LEIA TAMBÉM "SUGESTÕES INTERPRETATIVAS" DO LIVRO DO APOCALIPSE CONFORME OS LINKS ABAIXO:

1 - http://cristaodebereia.blogspot.com.br/…/apocalipse-sugesto…
2 - http://cristaodebereia.blogspot.com.br/…/apocalipse-sugesto…
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sábado, 2 de julho de 2016

TRÊS MANEIRAS DE COMO A TRIBULAÇÃO PRODUZ SANTIFICAÇÃO.


"SOFRIMENTO PARA O CRENTE NUNCA É SEM PROPÓSITO"

Basicamente não há nada neste mundo que confunda os cristãos mais do que o SOFRIMENTO.
Ao longo dos anos é incontável o número de pessoas que têm lutado para responder a pergunta:
"Por que coisas ruins acontecem a pessoas de Deus?"
Causa tristeza saber que por tanto tempo, tantos não assimilaram as perspectivas bíblicas sobre o sofrimento.
"POR QUÊ?" É a pergunta que muito de nós fazemos ao Senhor quando algo trágico acontece em nossas vidas ou na vida de pessoas de nosso convívio. A Bíblia é recheada de muitas histórias  de sofrimentos, mas raramente conseguimos discernir com nitidez o motivo das pessoas sofrerem.
Afinal, como identificar na Bíblia alguma explicação para o sofrimento?
Talvez as palavras de Paulo em Romanos [5:3-5] nos dê uma luz:
"E não somente isto, mas também nos gloriamos nas próprias tribulações, sabendo que a tribulação produz perseverança; e a perseverança, experiência; e a experiência, esperança. Ora, a esperança não confunde, porque o amor de Deus é derramado em nosso coração pelo Espírito Santo, que nos foi outorgado."
De acordo com o texto é possível entender que quando nos regozijamos no meio do sofrimento, nossa atenção se concentra no conhecimento que o Espírito Santo nos dá através deste sofrimento; e o resultado é triplo:

1- O SOFRIMENTO PRODUZ PERSEVERANÇA: Na Bíblia o significado de perseverança é a firme adesão a uma direção divina apesar das dificuldades e provações. À medida que somos provados desenvolvemos uma maior resistência para lidar com os desafios.
Em Tiago 1:2 a 5 está escrito: Meus irmãos tende por motivo de toda alegria o passardes por várias provações, sabendo que a provação da vossa fé, uma vez confirmada, produz perseverança. Mas a perseverança deve ter ação completa, para que sejais perfeitos e íntegros, em nada deficientes.”

2 - A PERSEVERANÇA PRODUZ A EXPERIÊNCIA [O CARÁTER]: por ser Deus que produz em nós a firmeza e a capacidade para lidar com maiores dificuldades, Ele também produz em nós um novo caráter, e esse novo caráter é a própria imagem de Cristo que se tornará clara por meio de nossas atitudes. Em essência o caráter significa a exposição de algo que está sendo testado. Quando estamos no auge das tribulações, Deus nos dá a graça para que elas sejam suportadas. Como o ourives usa o fogo no aquecimento do ouro bruto na panela de fundição fazendo as impurezas despregar, flutuar, e serem eliminadas para que fique somente o ouro puro, Deus da mesma forma faz uso do sofrimento e através dele as impurezas são removidas de nossas vidas.
Em 1ª Pedro 1:6-9 está escrito: “Nisso exultais, embora, no presente, por breve tempo, se necessário, sejais contristados por várias provações, para que, uma vez confirmado o valor de vossa fé, muito mais preciosa do que o ouro perecível, mesmo apurado por fogo, redunde em louvor, glória e honra na revelação de Jesus Cristo, a quem, não havendo visto, amais; no qual, não vendo agora, mas crendo, exultais com alegria indizível e cheia de glória, obtendo o fim da vossa fé: a salvação da vossa alma!”
O ourives sabe que o ouro está pronto para sair do fogo quando vê o seu rosto refletido no metal derretido, lhe permitindo então moldar o objeto que deseja. Esta é a forma que Deus usa conosco, ou seja, após sermos provados pelo sofrimento, nosso caráter irá refletir a imagem de Cristo, e então estamos prontos para realizar a tarefa determinada por Ele.
3 - A EXPERIÊNCIA PRODUZ A ESPERANÇA: a pessoa ao ser é santificada pelo evangelho torna-se progressivamente mais estável, e, portanto é capaz de concentrar em si com mais eficácia as riquezas e o fortalecimento dado pelo Senhor. E é esta experiência que será capaz de produzir em nós a esperança, pois a esperança é a alegre expectativa prometida por Ele, como está escrito em Romanos 15.13: “E o Deus da esperança vos encha de todo o gozo e paz no vosso crer, para que sejais ricos de esperança no poder do Espírito Santo.”

É nos tempos difíceis, que nós, como discípulos devemos mostrar quem realmente somos em Cristo. Se o vaso de barro não for quebrado fica impossível que alguém veja o tesouro guardado em seu interior. Da mesma forma, só quando nosso quebrantamento estiver exposto é que a imagem de Jesus pode ser vista. É glorioso saber que o sofrimento de um cristão nesta vida não é a negação de Cristo, mas sim a afirmação. À medida que experimentarmos as dificuldade e superar as provações, o Deus vivo nos transformará em ouro puro para sua glória.

http://www.christianitytoday.com/edstetzer/2016/june/
Traduzido por Fabio S. Faria.


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terça-feira, 21 de junho de 2016

AS AMARRAS DA LIBERDADE




"Há um paradoxo na compreensão cristã do que significa ser livre."

Escrito por  Roger Olson: 21 Jun 2013

Para milhões de pessoas, nenhuma palavra soa tão bem quanto "liberdade". Nos comerciais de televisão, anuncia-se que a compra de um automóvel ou uma viagem àquele destino paradisíaco trarão a liberdade de que o telespectador tanto precisa. Datas festivas, como a da independência de um país, também são saudadas como símbolos de liberdade, e boa parte dos hinos nacionais a mencionam. Políticos, homens de negócios, publicitários, vendedores, chefes militares – todos sabem como usar essa palavra para chamar a atenção de seus públicos e atrair interesse. Sim, poucas palavras são tão comuns e, ao mesmo tempo, carregam tamanho significado.
A palavra liberdade também é encontrada diversas vezes nas Escrituras e na tradição cristã. Qualquer crente que conheça minimamente a Bíblia já se deparou com versículos que dizem coisas como "a verdade vos libertará" (João 8.32) e que "é para a liberdade que Cristo vos libertou" (Gálatas 5.1). Logo, liberdade não é um tema apenas patriótico ou humanitário; é, também, um valor presente no Evangelho. Infelizmente, muitas pessoas confundem dois conceitos de liberdade bastante distintos. O conceito bíblico é bem diferente do significado cultural do termo, apesar de serem facilmente confundidos. E nenhum desses é o mesmo que "livre-arbítrio". Isso pode ser confuso para o cristão comum que deseja saber o que é a verdadeira liberdade. Seria a prerrogativa de ter escolhas? Seria a ausência de limites e restrições? Ou é o poder de fazer o que se deseja? E em que sentido Cristo nos liberta, e em que isso difere daquilo que a mídia, constantemente, nos promete?
No âmago do Evangelho cristão repousa uma incômoda verdade: a de que, para sermos livres, precisamos abrir mão de tudo o que a cultura secular nos oferece como fonte de liberdade. O Evangelho, ao que parece, requer uma distinção entre o prazer da verdadeira liberdade e a simples posse do chamado livre arbítrio. Não que o livre arbítrio ou a independência da tirania seja algo ruim; apenas, nenhuma dessas coisas representa a verdadeira liberdade. Esta, segundo o Evangelho, se encontra na obediência. E não é exatamente essa a imagem retratada na cultura popular.
Agostinho, o grande pai da Igreja, ensinava que a liberdade verdadeira não se trata de poder para escolher ou falta de restrições, mas sim, de sermos aquilo que fomos chamados a ser. Os seres humanos foram criados à imagem de Deus; a liberdade verdadeira, portanto, não é encontrada ao nos distanciarmos dessa imagem, e sim, se a vivenciarmos.
 Quanto mais nos conformamos à imagem de Deus, mais livres nos tornamos – em contrapartida, quanto mais nos distanciamos disso, mais perdemos nossa liberdade.
De uma perspectiva cristã, então, a liberdade – paradoxalmente – é um tipo de cativeiro. Martinho Lutero foi quem expressou essa verdade da melhor maneira, desde o apóstolo Paulo. Em seu tratado de 1520, A liberdade de um cristão, o reformador sintetizou a ideia em poucas palavras: "O cristão é o senhor mais livre de todos e não está sujeito a ninguém; o cristão é o servo mais obediente, e está sujeito a todos". Em outras palavras, de acordo com Lutero, por causa do que Cristo fez e por causa de sua fé no Salvador, o cristão se tornou completamente livre da escravidão da lei. Ele não precisa fazer nada. Por outro lado, em gratidão pelo que Jesus fez por ele e nele, o cristão está preso no serviço a Deus e ao próximo. Ele tem a oportunidade de servi-los com alegria e liberdade. Logo, quem não entende o significado dessa oportunidade simplesmente não experimenta a alegria da salvação. Foi isso que Lutero quis dizer.
OBEDIÊNCIA E SERVIDÃO
Pulando do século 16 para o 20, e de um reformador do magistério para um teólogo anabatista radical, temos John Howard Yoder escrevendo, em A política de Jesus, acerca de "subordinação revolucionária". Segundo ele, não é possível encontrar a verdadeira liberdade focando em nossos próprios direitos, mas sim, entregando-os livremente, sendo servos de Jesus Cristo e do povo de Deus. Tudo isso, claro, é bastante difícil para ocidentais do século 21 engolir. Somos herdeiros do Iluminismo, vítimas de uma lavagem cerebral feita pela ênfase da modernidade no individualismo e na liberdade. Somos bombardeados, desde a infância, com a mensagem de que a liberdade significa autoafirmação, reivindicação de nossos direitos, ausência de restrições e senhorio sobre nós mesmos. A maior virtude defendida pela sociedade contemporânea é a de "ser verdadeiro consigo mesmo". Em outras palavras, é como se cada um dissesse, o tempo todo: "Não me limite!". Acontece que nenhuma verdade é mais difundida nas Escrituras e na tradição cristã do que a de que a verdadeira liberdade se encontra na obediência e na servidão. E, ao mesmo tempo, nenhuma verdade está mais em desacordo com a cultura moderna. Nesse ponto, nos encontramos diante de duas alternativas: a mensagem do Evangelho a respeito da verdadeira liberdade versus a mensagem cultural da autonomia e do "vivo como quero". O contraste que há entre a verdade do Evangelho e seu substituto satânico começa a se desenrolar em Gênesis, na história da criação e da queda. De acordo com Gênesis 2, Deus deu liberdade aos primeiros seres humanos: "De toda árvore do jardim comerás livremente; mas da árvore do conhecimento do bem e do mal, dela não comerás".
Condicionados como estamos pela modernidade e sua obsessão por autonomia, nossa primeira reação é o questionamento: "Como isso pode ser liberdade?" - afinal, para nós, liberdade com limitação não é liberdade. Sabemos, entretanto, como esse tipo de liberdade foi compreendida por Adão e Eva, assim como por toda a raça humana. Trata-se de uma história de vergonha, alienação, inimizade e morte – em suma, a antítese absoluta da liberdade. Em Paraíso perdido, John Milton parodiou a raiva da humanidade por causa de suas limitações na declaração de Lúcifer: "Melhor reinar no inferno do que servir no céu!". Fica a questão: Quando Adão e Eva estavam mais livres? No Jardim do Éden, quando podiam comer de todas as árvores, exceto uma? Ou depois, quando perderam o Paraíso e ficaram "livres" para comer de tudo o que quisessem? As implicações do ocorrido no início são inevitáveis: a verdadeira liberdade é encontrada apenas através da obediência a Deus e da comunhão que a acompanha. Já sua perda se dá com a autoafirmação, o desejo idólatra de cada um governar seu "pedacinho de inferno", em vez de desfrutar das bênçãos do favor de Deus.
Toda a narrativa bíblica pode ser lida como um drama sobre a liberdade e sua perda através do desejo e da tentativa do ser humano de aproveitar uma autonomia irrestrita. Tome-se como exemplo as frequentes rebeliões de Israel e sua consequente perda de proteção divina; ou a atitude de Davi diante de sua redescoberta da alegria na obediência às leis de Deus; e também os chamados de trombeta dos profetas para que Israel e Judá guardassem a lei do Senhor – e a subsequente perda da liberdade do povo, por ter insistido em fazer as coisas à sua maneira.
Em nenhum outro trecho bíblico esse contraditório tema ficou mais claro do que no Novo Testamento. Jesus disse a seus discípulos: "Porque aquele que quiser salvar a sua vida, perdê-la-á, e quem perder a sua vida por amor de mim, achá-la-á". E, mais uma vez, ele disse aos que o seguiam: "Quem quiser tornar-se grande entre vós, será esse o que vos sirva; e quem quiser ser o primeiro entre vós será vosso servo" (Mateus 20.26-27). É verdade: o apóstolo Paulo falou diversas vezes sobre nossa libertação, em Cristo, de uma obrigação externa, ou seja, da lei. A confiança em Jesus é, de acordo com ele, a única base para um relacionamento correto com Deus. Por outro lado, ao longo de suas epístolas, ele nos aconselha a abrir mão de nossos direitos e liberdades em prol da propagação do Evangelho e da proteção da consciência das outras pessoas. Paulo encontrou a verdadeira liberdade ao abrir mão de seus direitos: "Porque, sendo livre para com todos, fiz-me servo de todos para ganhar ainda mais" (I Coríntios 9.19).
AMOR SACRIFICIAL
O tema da liberdade através da obediência e servidão é tão predominante no Evangelho que é difícil deixá-lo passar despercebido. No entanto, isso, muitas vezes, acontece devido à ênfase dada à autonomia por nossa cultura. Então que tipo de obediência traz a liberdade verdadeira? Em primeiro lugar, e contrariamente à opinião popular, não se trata de uma obediência imposta.
Não se trata de obedecer à vontade de Deus porque tememos as consequências da desobediência. A obediência ao Evangelho é sempre voluntária. No momento em que a obediência a Cristo se torna penosa, ou mero conformismo relutante, não é mais a obediência do Evangelho. Somente quando a obediência é prazerosa, resultado de gratidão, ela proporciona liberdade verdadeira, a que vem quando somos aquilo que fomos criados para ser.
Em segundo lugar, a obediência que traz liberdade verdadeira é motivada pelo amor sacrificial. Yoder descreve profeticamente esse tipo de servidão como "subordinação revolucionária", onde cada crente busca o bem dos outros sem tentar fazer valer seus próprios direitos. Em uma comunidade onde todos vivem dessa forma, em gratidão a Jesus Cristo, capacitados pelo seu Espírito, a verdadeira liberdade é abundante.
Então, qual a relação de tudo isso com o e tem como livre arbítrio? Liberdade, então, não significa nada além de livre arbítrio? É claro que não. Se, por "liberdade" queremos dizer a liberdade do Evangelho – na servidão, tornamo-nos aquilo que Deus deseja de nós, na obediência a Cristo e em nossa transformação à sua imagem, algo bem, mas profundo que o simples exercício do livre arbítrio. Isso é algo em que arminianos – e que creem que o homem é livre para escolher – e calvinistas, que acreditam na escravidão da vontade e soberania absoluta de Deus, poderiam concordar. Os arminianos evangélicos acreditam que a verdadeira liberdade transcende o livre arbítrio, que, nessa análise, seria simplesmente da capacidade dada por Deus para escolhermos a verdadeira liberdade, oferecida pela graça, ou a rejeitarmos devido à nossa obstinação egocêntrica.
Nem todos os cristãos creem no livre arbítrio. Lutero era um deles. Mas não é essa a questão. Quer alguém creia ou não, a liberdade verdadeira é outra coisa, e não contradiz o livre arbítrio; ela simplesmente o transcende. Todos os cristãos concordam que a autêntica liberdade, aquela que procede da obediência a Cristo e da conformidade à sua imagem, é um dom de Deus que iremos desfrutar plenamente quando formos glorificados com ele. É sobre isso que Paulo fala em Romanos 7: aqui na terra guerreamos entre a "carne" – a natureza caída – e o Espírito, dom de Deus, que habita em nós. Nesse ínterim, enquanto aguardamos nossa plena glorificação, crescemos em liberdade apenas ao trocarmos uma atitude de submissão à lei por um novo coração que se deleita em obedecer a Cristo. Pela graça de Deus, e com a ajuda de seu Espírito, podemos perceber uma liberdade ainda maior do pecado e da morte. Mas a liberdade em sua plenitude só vem após nossa ressurreição. Teólogos chamam de "santificação" o processo pelo qual se experimenta gradualmente a autêntica liberdade antes da morte. Há muitas opiniões divergentes a respeito de quão intensa e completa tal liberdade pode ser antes da ressurreição.
Todos, porém, concordam que a liberdade verdadeira é um dom que recebemos aos poucos, ao longo da vida. Paulo foi claro em sua carta aos crentes de Filipos: "Desenvolvei a vossa salvação com temor e tremor; porque Deus é quem efetua em vós tanto o querer como o realizar, segundo a sua boa vontade". A salvação, em outras palavras, é tanto dom quanto missão. O "porque" usado por Paulo indica que o dom está na base da missão. Somos chamados, em um exercício de livre arbítrio, a obedecer e servir. Trata-se de uma decisão nossa.
GRAÇA x LIVRE ARBÍTRIO
Por outro lado, sempre que experimentamos essa liberdade maior que vem da obediência genuína e somos conformados ao caráter de Cristo, nos tornando servos verdadeiros, reconhecemos que é tudo devido à obra de Deus em nós. É esse o paradoxo da graça e do livre arbítrio. A graça de Deus, que deseja nos conceder a liberdade, está presente, desde o momento da nossa conversão. A graça nunca nos falta, nem precisa ser reforçada. Mas pode, no entanto, ser bloqueada por atitudes e hábitos indevidos, ressentimentos e atitudes egoístas. Cabe a nós encontrá-los – com a ajuda do Espírito, é claro – e trabalhá-los através de um processo de arrependimento e submissão. O livre arbítrio, assim, é uma condição necessária a esse processo, mas não o resultado final. Tal processo não leva à autonomia absoluta, mas sim, a uma liberdade crescente do jugo do pecado e da morte. Já estamos livres da lei e da condenação; portanto, a liberdade para nos tornarmos o que Deus planejou é trabalho dele e nosso também – a glória, porém, é toda do Senhor.
O Evangelho é uma boa nova incondicional. Não precisamos fazer algo ou obedecer a alguém; isso seria horrível. Não; o Evangelho trata-se, de fato, de poder fazer algo, o que é sempre positivo. Trata-se do que podemos ter à medida que permitimos, de bom grado, que Deus, através do seu Espírito, faça sua obra em nós: a certeza da vitória sobre o pecado e a morte. Apenas quando abraçarmos essa vitória – e renunciarmos a todas as reivindicações para governar nossas próprias vidas – é que seremos verdadeiramente livres.

PUBLICADO NA REVISTA "CRISTIANISMO HOJE"
http://www.cristianismohoje.com.br/artigos/espiritualidade/ha-um-paradoxo-na-compreensao-crista-do-que-significa-ser-livre 





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segunda-feira, 16 de maio de 2016

"AUTOBIOGRAFIA DE DE HUGH TUCKER!"



CAPÍTULO XII

                                               

 Social Service


Fr

Frequentemente me perguntam quando e como me tornei interessado no moderno “evangelho social”. 
A pergunta não pode ser respondida, pois tal interesse é inseparável do desenvolvimento de minha atitude cristã e minha carreira desde o início. As crianças pobres de algum país imigrante, nossos vizinhos, em nossa escola do interior, não tinham o suficiente para comer e eu instintivamente sabia que deveria repartir minha merenda com eles. Eu testemunhei as devastações da guerra civil e subsequente desorganização da sociedade e o sofrimento do povo. Em Nashruille, durante um ano e meio eu auxiliei os pobres trabalhadores empregados nas fabricas industriais. Lá eu também encontrei as necessidades e problemas dos negros através da Universidade Fish. Não me ocorreu que a religião que eu professava e sobre a qual pregava, não tivesse mensagem ou aplicações para os problemas com os quais eu entrava em contato diariamente. Nunca concebi religião exclusivamente em termos de “outro mundo”.
           Quando cheguei ao Brasil, encontrei problemas sociais de natureza muito mais séria. A escravidão ainda predominava, e as concepções modernas de humanizações estavam ausentes em setores como saneamento, saúde pública, cuidados com as crianças e tratamentos dos criminosos. 
           As condições eram muito mais primitivas do que qualquer coisa que eu  havia conhecido nos Estados Unidos, especialmente no interior. Alguém com meu “leachgnound” e treinamento não podia deixar escapar a convicção de que como um ministro cristão, eu havia sido chamado a fazer alguma coisa a respeito disso. 
      Quando mais tarde eu li os trabalhos de Rauschenbush sobre o evangelho social, minhas ideias se clarificaram e se aprofundaram minhas convicções, mas elas não acrescentaram nada essencialmente novo.
         Em 1880 sofri um ataque de febre amarela. Miss Epanbery com quem eu casaria, contraiu a doença no mesmo ano. Quatro anos mais tarde nossa pequena filha sofreu da mesma doença. Alguns dos missionários que me precederam e também alguns colegas haviam contraído a doença. 
Os que receberam maiores cuidados sobreviveram, porém muitos outros foram enterrados vitimas da devastação deste flagelo. 
Febre amarela não era a única epidemia no Brasil. A varíola frequentemente se espalhava pela comunidade; a média de mortes por tuberculose era quase tão alta quando a da febre amarela e estava sempre crescendo. As doenças venéreas eram comuns, e a mortalidade infantil era alta atingindo níveis alarmantes; milhares de leprosos se misturavam livremente com a população em geral.
Pouco ou nada estava sendo feito a respeito destas coisas. Saneamento e método de combate, ou eram desconhecidos ou negligenciados. A atitude de oficiais e do público em geral era de fatalismo desanimador; eles encaravam estas devastações como sinais divinos e se satisfaziam em deixar a situação para a providência.
Não havia no Rio de Janeiro hospitais com enfermeiras treinadas para a comunidade estrangeira. Meu amigo Mr. A. J. Iamoureux, editor do “Rio Nws” tinha chamado a atenção para a necessidade de tal instituição, mas nada estava sendo feito a respeito. Pareceu-me ser parte de meu dever, e apesar de minhas relações e influência serem limitadas resolvi tomar a iniciativa.
Certa manhã caminhava pela Rua General Câmara (antes Rua do Salão) próxima a casa de um cavalheiro inglês, Mr. P. S. Nicholson e apresentei a ele uma lista de subscrições que tinha preparado. Fui cordialmente recebido e encorajado.
         Mr. Nicholson e outros desenvolveram um plano de ação, e conseguiram os fundos necessários para que fundássemos o Hospital dos Estrangeiros e trouxéssemos da Inglaterra enfermeiras treinadas.
Em 09 de janeiro de 1893 realizamos a cerimônia de inauguração na presença de um grande número de pessoas da comunidade de língua inglesa, e de um grupo de médicos brasileiros e dignitários. Fui membro da junta de Diretores, e por 20 anos o presidente. Hoje sou o único membro sobrevivente da Junta.
          O Hospital dos Estrangeiros proporcionou uma contribuição pioneira para o desenvolvimento do serviço de enfermagem adequado, e por 50 anos tem estado a frente da ciência médica. Ele estimulou a organização dos serviços médicos no Brasil em sua totalidade.  
               A necessidade de um hospital protestantes estava sendo sentida e minha iniciativa e participação na fundação do Hospital dos Estrangeiros despertou o interesse que levou à fundação da Associação do Hospital dos Evangélicos, do qual me tornei um membro provedor, e desde então tenho servido como presidente e tesoureiro. O projeto foi coroado de sucesso e o hospital foi construído numa base inteiramente denominacional. 
Ele não somente prestou um importante serviço médico, como também ampliou a esfera de aço e de influência do movimento protestante ajudando a criar um espírito de cooperação.
   Mas o que podia ser feito a respeito da temível devastação da febre amarela? Em 1901 o primeiro raio de luz apareceu quando eu li a respeito das investigações levada a efeito em Cuba, e os notáveis resultados que foram conseguidos pelos doutores Walter Reed, Carlos J. Finley, Jesse Lazear, ª Agromante e James Carroll. Naquele ano Mrs. Tucher e eu assistimos uma Conferencia Ecumênica em Londres, e no nosso retorno visitamos os Estados Unidos. 
Através dos pais de Mrs. Tucher, Bispo e Mrs. Epanbery, nós encontramos Mrs. Blincol, irmã do Dr. Reed a quem nós relatamos nossas experiências não só como vitimas da febre amarela, mas também como enfermeiros de outras vitimas. Não foi possível, na época arranjar um encontro com Dr. Reed, mas Mrs. Blincol se prontificou a apresentar nossos desejos para ele. Pouco depois de retornar ao Brasil, recebi uma carta do Dr. Reed, na qual ele expressava interesse em nossos problemas e oferecia cooperação completa. Ao mesmo tempo mandou cópias da literatura então encontrada, incluindo “A Etiologia da Febre Amarela” e “observações e pesquisas”.
Nesta época o Dr. Osvaldo Cruz distinto médico e cientista que se tornaria famoso por erradicar a febre amarela no Brasil, era presidente da junta Médica Publica. Transmiti a ele as cartas e os documentos enviados pelo Dr. Reed. Também consegui em Washington literaturas de mais pesquisas, e por dois anos correspondi fervorosamente com o Dr. Reed e seu sucessor, Dr. Carroll, e entregava as cartas ao Dr Cruz que as mandava traduzir, e as publicava.
O Dr. Cruz delineou um plano de ação, e organizou uma campanha contra a febre amarela. Por minha sugestão publicou um folheto indicando o que era necessário, em matéria de cooperação pública e colocou-o em todas as casas da cidade. 
Eu não posso, adequadamente, mostrar a dificuldade enfrentada pelo notável medico quando ele começou a campanha de erradicação da doença. Seu cargo, por exemplo, era uma nomeação política, e só podia assumir o trabalho se lhe fosse assegurado que a política não interferiria em seus planos e em seu mandato oficial por um bom período. Foi assim que ele explicou para as autoridades, e foi capaz de obter as requeridas garantias. Minha parte foi somente à correspondência com a América e a transmissão das cartas, além de matérias com palavras de encorajamento ao Dr. Cruz.
 Mas isto me deu prazer e um sentimento de gratidão por ter podido cooperar no que eu via, como uma aplicação do Evangelho de meu Mestre às necessidades de uma grande raça.
Os mosquitos mortíferos tinham infestado a cidade em 1849. As condições e os hábitos do povo favoreciam a reprodução, portanto, o problema era destruir o local de reprodução e as fontes de suprimento. Desde o início das construções tinha sido costume cercar os lotes e as casas com muros e sobre eles eram colocados uma mistura de cimento, cacos de garrafas quebradas, e pedaços de vidro. 
A água contida nos pequenos receptáculos destas paredes era uma fonte prolífica de insetos. Dr. Cruz ordenou que aquela mistura com os cacos de garrafa e os pedaços de vidro fosse retirada de todas as construções e as substituíssem por com cimento liso. 
Latas velhas, assim como  lixo em quintais e lotes vazios foram removidos. 
Pano roto e entulhos que eram atirados de prédios mais altos para os adjacentes de tetos mais baixos absorviam água e favoreciam a reprodução de mosquitos. Capim e ervas cresciam nos tetos de edifícios. Para conseguir a aprovação e cooperação do povo no ataque a todas essas coisas requeria muita habilidade e paciência.
Centenas de trabalhadores em todas as partes da cidade reembocavam paredes, limpavam os telhados, varriam as ruas e coletavam lixo. Homens ou sinais avisavam os pedestres a evitar as áreas onde os trabalhos estavam sendo efetuados e o lixo acumulado. Era necessário entrar em propriedades particulares para matar os mosquitos nos sótãos e lugares úmidos e escuros dos edifícios. Certa ocasião nossos vizinhos ficaram em nossa casa enquanto sua casa estava sendo desinfetada, depois nós ficamos na casa deles enquanto a nossa passava pelos mesmos processos severos e completos.
Dr. Cruz iniciou sua campanha em 20 de abril de 1903. Naquele ano houve 584 mortes de febre amarela. No ano seguinte houve só 84 mortes. Em 1908 houve 5 mortes, depois do que a doença foi declarada erradicada da capital do Brasil. 
 Em suas cartas o Dr Carrol sucessor do Dr Reed, já falecido, deu-me o prazer de transmitir não só esta mensagem “Eu me congratulo com vocês de todo coraçãopela luta contra a febre amarela”, como muitas outras mensagens de congratulações dos Estados unidos para o Dr. Cruz e seus associados que haviam vencido a batalha.
    O sucesso desta campanha contra a febre amarela atraiu a atenção do mundo inteiro, e deu um novo ímpeto ao notável esquema de saneamento e de melhorias propostas pela administração do Presidente Rodrigues Alves.  
Numa área de ruas estreitas e congestionadas  que se estendia através do centro comercial até o cais da Prainha, à margem d’água, do Boqueirão do Passeio, 590 edifícios foram demolidos abrindo o caminho para a moderna e popular Avenida Rio Branco, que se constituiu na principal via de escoamento através da cidade. Um paredão junto ao mar de 3 milhas de comprimento foi construído, e o Morro do Senado foi demolido e o lixo jogado atrás do paredão para permitir uma nova área de edifícios de muitos milhares (Squase Yards). 
                Assim foi o inicio do desenvolvimento moderno do Rio, mas estes melhoramentos não cobriram toda a cidade. Milhares de trabalhadores vieram de todas as partes do Brasil e se assentaram numa área já superpovoada, ou seja, nas encostas dos morros e outros locais próximos. Os belos prédios previamente destinados a ser ocupados por pessoas prósperas tornaram-se cortiços superlotados e lá se desenvolveram os "bairros cortiços", nos quais as condições de vida eram na maioria das vezes indescritíveis.
            Nas tardes de domingo, eu frequentemente andava por estas ruas e becos repletos de pessoas observando as faces e os movimentos de homens, das mulheres e das crianças, pedindo a Deus que eu pudesse achar uma maneira de fazer alguma coisa para melhorar suas condições.
Eu era o Secretario da Sociedade Bíblica, e então enviei colportores para aquela zona para distribuir cópias da Bíblia, e em resposta recebi alguns relatórios interessantes. Um dos colportores me pediu para ir com ele a certo lugar na hora do almoço. Lá encontramos um grupo de 42 trabalhadores sentados em tábuas de madeiras, pedras, ou no chão. Um dos homens sabia ler e após ter comido rapidamente seu lanche, leu em voz alta para os que comiam mais devagar o Novo Testamento. Esta foi a rotina diária até que todo o Novo Testamento houvesse sido lido. Então perguntaram ao colportor se ele recomendaria outro livro, e ele o recomendou. Mas em nossa visita seguinte fomos informados de que os homens não gostaram do segundo livro como do primeiro, e então eles estavam lendo o Novo Testamento do começo ao fim.
              Meu interesse nesta zona aprofundou-se e eu resolvi arranjar um lugar para reuniões, instituição e serviços gerais. Consultei os missionários e fui informado que as juntas não poderiam ajudar. 
Apresentei a situação para alguns amigos e realizamos alguns encontros, em intervalos regulares por vários meses, porém não conseguimos formular um plano de ação. 
Um dia recebi uma carta de Mr. C. Hlay Walher residente em Londres, que era para mim um desconhecido, porém sua firma era a encarregada pela remoção do Morro do Senado e pela construção do cais do porto. Ele havia ouvido a respeito da minha atitude em doar Bíblia aos seus trabalhadores, e por esta razão sugeriu que sua companhia se prontificasse a procurar meu escritório no Rio de Janeiro e oferecesse uma ajuda. Em uma visita ao meu grupo de amigos, o emissário da empresa me disse: “tenho esperado por você por vários dias”, e acrescentou: “tenho ordens para entregar-lhe 250 pomadas”. Esta era uma quantia muito maior do que eu esperava, mas além dela, Mr. Walher e sua esposa contribuíram também com quantia semelhante por sete anos, até que fosse completado o trabalho sob sua direção.
Consegui um salão, comprei cadeiras, uma mesa e enviei convites para as pessoas virem assistir a pregação inicial de um sermão na tarde do domingo, 13 de maio de 1904, o aniversário da assinatura da Lei Áurea. 
Mais de 225 pessoas encheram o pequeno salão, e foi assim que começou a "Missão central do agora Instituto Central do Povo", que através dos anos tem expandido seu trabalho e tem se tornado o mais importante centro social protestante em todo Brasil.
O Instituto Central do Povo ficava localizado próximo do cais do porto, onde marinheiros de todas as partes do mundo caminhavam à toa pelas ruas, enquanto seus navios estavam ancorados, já que não havia missão ou abrigo para marinheiros no Rio. Esta necessidade me deixou bastante preocupado, e então me dispus a fundar uma missão para abrigar estes marinheiros.. 
Procurei auxílio das firmas de negócios, e das pessoas aqui no Brasil, e em Londres que faziam parte da Associação Britânica, e também na Sociedade de Amigos dos Marinheiros em N Y. O meu apelo recebeu apoio e ajuda de todas estas associações. Foram conseguidas salas e mobílias, e a missão dos marinheiros tornou-se uma realidade. Relatos de sua existência e de seu trabalho foram levados por marujos ao redor do mundo, e ela tornou-se uma bem conhecida instituição de caráter internacional. Por motivo de minha atividade neste aspecto convidaram-me para participar de uma conferência internacional em benefício do marinheiro e da inauguração do novo Instituto dos Marinheiros em N.Y. em 1.908.
Como um penhor pela apreciação, a Companhia Lamport e Holt e a Companhia brasileira Lo Hoyal doaram-me passagem de ida e volta para N.Y nesta ocasião.
As necessidades das massas e especialmente das numerosas crianças nas ruas e nos becos perto de nosso salão alugado, pedia um serviço muito além  do nosso programa original de pregação e distribuição de bíblias, requerendo mais espaços e trabalhadores, do que podia ser conseguido com os fundos que podíamos arranjar. Eu expus a situação para o presidente de uma grande empresa de serviço público que ficou interessado e me levou ao diretor geral a quem repeti o apelo, em resposta ele me perguntou: “Que tal dois contos de réis para você começar?”. Aquilo era $600 muito mais do que eu ousava esperar. Com isto instituímos uma escola diária, classes noturnas e um jardim de infância. Foi o primeiro jardim de infância estabelecido no Rio, e, portanto atraiu muita atenção. Estudantes de escola normal vieram para ver e aprender, e eu tenho tido o prazer de ver vários, outros jardins de infância estabelecidos sob o controle governamental. 
Os nomes de C. Hlay Walher, Si Alexander Machskenzie e F. H. Iluntrers, junto com muitos outros, cujos nomes são impossíveis de se mencionar aqui, serão para sempre lembrados por sua cooperação em tomar possível a origem e o sucesso do Instituto Central do Povo.
A proposta de sanar as necessidades, uma vez começado parecia não ter fim, e sempre surgiam mais. As condições dos dentes das crianças foi uma das primeiras necessidades apresentadas, pois, indicavam total falta de atenção e frequentemente resultavam em dor. Falei com o Dr. J. W. Coackman, que foi chamado o “Pai dos trabalhos dentários do Rio”. Além de oferecer seus serviços profissionais, conseguiu escovas e ensinou as crianças a usá-las.
Médicos foram consultados e solicitamos a eles fazer um trabalho voluntário tratando as crianças cujos pais não podiam pagar pelos seus serviços. 
Estas atitudes propiciaram a estruturação e organização de clínicas médicas e dentárias, que funcionassem permanentemente, e então publiquei no “Jornal do Comércio” um artigo sobre a necessidade de enfermeiras com prática para treinar candidatas que se dispusessem a aprender o ofício. 
O anúncio despertou algum interesse, e consegui o auxilio de uma enfermeira do Hospital dos Estrangeiros. 
Ela, juntamente ao diretor médico de nossa clinica foram os responsáveis pela ministração deste primeiro curso de enfermagem, algo nunca visto na cidade.
        Quando a Avenida Central foi aberta, e uma rua perto de nossa missão foi alargada, eu observei que centenas de crianças saíram dos becos estreitos e de seus quartos sórdidos para ir brincar na rua alargada e isto propiciou o risco de acontecer acidentes. 
Não demorou muito, e logo uma criança foi morta por um carro que passava, e com medo as outras crianças retornaram correndo para seus pardieiros. 
Visando solucionar este problema consegui uma barca de uma firma amiga, e levei 300 crianças para um "pic-nic" numa ilha. Assim que desembarcaram, eles tiraram os sapatos e se puseram a pular pela grama como carneirinhos brincalhões, e uma menininha aninhou-se ao meu lado e disse: “Esta é a primeira vez que meus pés descalços tocaram a grama verde”. Isto me fez ver a importância em ter lugares apropriados para as crianças brincarem, mas de imediato previ as dificuldades que haveria em despertar interesse por este tipo de projeto, já que era jamais proposto no Rio de Janeiro.
Comecei este novo projeto em 03 de julho de 1909, com uma publicação de um artigo no “jornal do Comércio” onde procurei mostrar a validade de haver na cidade os playgrounds modernos.
Dei prosseguimento ao projeto através de mais dois artigos semelhantes, em dezembro e fevereiro, e nestes últimos  pedi que  as autoridades se dispusessem a instalar "playground" pela cidade. 
Quando Mr William Jennings Bryan visitou o Rio em março de 1910, ele veio ao Instituto Central do Povo onde realizou uma palestra sobre playgrounds na presença de algumas pessoas representativas, a quem eu havia convidado para aquela reunião. Durante a palestra ele apelou à esposa do prefeito para que usasse sua influencia  e apoiasse a realização do projeto.
A palestra surtiu algum efeito, mas o interesse desenvolveu-se apenas em um círculo seleto, e pouca impressão causou nas autoridades. 
Fiz uma visita ao diretor de parques e jardins, pois o mesmo se orgulhava de seus parques muito bem cuidados, cercados com grades de ferro, e trancados a noite para evitar a movimentação das pessoas que passavam nas ruas, mas quando lhe expus sobre os "playgrounds", declarou que nunca tinha ouvido falar em tal coisa, e pouco se importava a respeito. 
   Viajei aos Estados Unidos, e no período que lá permaneci de abril a outubro de 1910, aproveitei a oportunidade para visitar muitos playgrounds a fim de conseguir informações detalhadas sobre eles. Quando visitei a Associação de Parques e Jardins de Recreação da América pedi algumas sugestões, e de posse das mesmas convenci a comissão das Associações Cristã de Moços a se comprometer enviar um diretor e um especialista em educação física, caso meu projeto se materializasse. Consegui catálogos de Spalding e circulares ilustradas descrevendo equipamentos de todos os tipos para playgrounds, e assim me senti preparado, pronto para recomeçar minha campanha.
        Em novembro, após minha volta ao Rio de Janeiro, o superintendente, se rendeu à minha persistência convidando-me a encontrá-lo no parque do velho Palácio Imperial, o hoje Museu Nacional. O prefeito veio em sua companhia e ao me cumprimentar sua primeira pergunta foi: “o que o senhor quer dizer com playground?” 
A resposta foi mostrar a eles o catálogo de Spolding e as circulares; descrevi o equipamento ilustrado, e discursei com toda minha eloquência sobre as necessidades e vantagens dos playgrounds. Repentinamente, e para minha grande surpresa, o prefeito apontou o dedo para um grande terreno cercado, onde uma grande árvore  propiciava uma boa sombra e me fez a segunda pergunta: “Isto servirá?” 
     Mesmo sendo distante de nossa missão e dos becos onde nossas crianças moravam, eu rapidamente respondi afirmativamente, assegurando-lhe ser ali o local designado e que não seria impossível convencer a companhia de bondes a transportar nossos meninos e meninas.
As autoridades concordaram em preparar o local e instalar os aparelhos com as despesas pagas pela prefeitura. O Diretor Geral da Companhia Elétrica Light and Pouwer comprou o equipamento, e sete negociantes forneceram os outros materiais necessários. O movimento foi um sucesso!  
A inauguração formal do primeiro playgrounds moderno para crianças no Rio aconteceu em 12 de outubro de 1911 em conexão com um feriado nacional comemorando a descoberta da América. O prefeito, o superintendente de parques e muitas pessoas importantes estavam presentes. Havia uma banda muitos discursos de congratulações, a bandeira nacional foi hasteada e as crianças cantaram o hino nacional. A Associação Cristã de Moços cumpriu sua promessa de fornecer um diretor. O playground foi aceito e apreciado como uma instituição na vida da cidade desde então.
A companhia de Gás do Rio, uma subsidiaria da Ligth and Power Company cujo presidente e o diretor geral tinha ajudado nossa empresa em expansão, em 1910 tomou providências para instalação de gás para a cozinha e para aquecimento. 
Por minha sugestão a companhia instalou os fogões do Instituto Central do Povo, como também fornos e ferros de passar roupas, e forneceu gás gratuitamente assim permitindo que estabelecêssemos um eficiente departamento de assistência e economia doméstica. 
 Dispusemo-nos a oferecer instruções para o uso dos novos instrumentos à cozinheiras enviadas por empregadores e para donas de casa interessadas. Esta atitude também fez com que muitas pessoas viessem nos visitar e assim se tornassem conhecedores das várias formas de serviços prestados pelo Instituto.
         Em muitos momentos eu caminhava ao longo de ruas sem ser visto pelas crianças, observando sua conduta ao voltarem da escola para suas casas. Em um dos caminhos usados, as crianças obrigatoriamente passavam por ruas onde havia um grande número de prostitutas; elas ocupavam quartos ao rés-do-chão, e frequentemente semi-nuas tentavam atrair a atenção dos meninos maiores através de janelas abertas. Procurei o chefe de policia, Dr. Alfredo Pinto e relatei a ele esta situação. Após ouvir o relato com atenção me assegurou que trataria o assunto com muita consideração. Ele era de Juiz de Fora, sede do Instituto Yranhery e falou com ardor do cuidado dedicado pelo colégio e pelos missionários aos assuntos que visavam a melhor condição de vida relativa aos problemas morais. Então emitiu uma ordem para que não fossem mais permitidos a presença destas mulheres nos quartos ao rés-do-chão, e após algum tempo conseguiu expulsa-las daquele distrito.
Ao consultar o Dr. Osvaldo Cruz sobre nossos planos relativos aos serviços médicos e à clinica, ele me disse: “Meu Deus! Porque você foi para aquele distrito fundar tal instituição? É a mais difícil e perigosa zona da cidade. Às vezes, o povo faz barricadas nas ruas e desafiam a policia”. 
Eu o fiz ver que o trabalho era mais necessário justamente em tal lugar, e como nosso conhecimento havia se tornado uma verdadeira amizade devido à campanha contra a febre amarela, ele se rendeu aos meus argumentos afirmando: “Farei tudo o que puder para ajudá-lo”.
             Pesquisas feitas nas proximidades da missão revelaram a prevalência da tuberculose e a falta de conhecimentos a respeito da doença. Consegui dos Estados Unidos, o cartão “Não faça isso” e o editei em português. Também consegui um bom número de slides sobre a tuberculose para que os mesmos fossem exibidos enquanto o médico da missão explanasse a respeito da doença. Eu sabia que se o embaixador americano, um homem muito popular, aceitasse assistir esta exibição, nós poderíamos contar com a presença de vários oficiais brasileiros e de vários homens de influência. O embaixador cortesmente prometeu estar presente, e assim informei ao prefeito do Rio, ao Diretor da Junta de Saúde Publica, aos profissionais da imprensa. Quase todos estes e mais 200 outras pessoas viram os slides, ouviram a palestra e receberam os cartões. Nossa campanha estava lançada com sucesso.
              Os jornais diários relataram o evento e nós fizemos uma ampla distribuição dos cartões, cujo conteúdo era composto por uma série de conselhos práticos. O Diretor da Junta de Saúde Publica, Dr. Carlos Seidl pediu que os slides fossem exibidos em "Escolas Publicas", e ao ar livre em praças públicas da cidade. Nestas exibições eu chamava a atenção para os principais fatores de expansão da doença, que era constituído pela expectoração sem os cuidados devidos, e pelo hábito das moscas caseiras, o que convenceu o departamento de Saúde Pública a imprimir e distribuir um folheto explicativo sobre o assunto desde que eu fornecesse o material.
Consegui publicações de Washington e de Londres, e com a ajuda do médico do nosso Instituto, preparei um folheto de 124 paginas intitulada “Moscas e Doenças”, que foi publicado e espalhado pela cidade aos milhares.

Principalmente entre os jovens os casos de doenças venéreas predominavam e milhares de lares estavam sendo destruídos. Fui informado de que médicos e pais não achavam que a castidade de um modo geral fosse possível, e que a repressão seria ruim para a saúde. O secretario da ACM, Mr. Myron C. Clash, e eu compramos da Associação Americana de Higiene Social um conjunto de slides e uma palestra sobre o assunto. Foi-nos dito que os slides não poderiam ser mostrados sem provocar hilaridade e fariam mais mal do que bem. Primeiramente convidamos alguns médicos, homens de imprensa e outros para uma sessão a portas fechadas. 
Alguns eram céticos e uns poucos totalmente contra, mas a maioria achou que a experiência poderia ser feita com poucos rapazes que aceitassem um convite especial. Seguiram-se resultados encorajadores e o processo foi repetido de tempos em tempos, com cuidado.
Por ocasião da celebração do centenário da Independência do Brasil em 1922, a Associação Americana de Higiene Social me enviou um telegrama para saber se seria aconselhável um dos secretários que estava vindo para o Rio, trouxesse um filme acompanhado de palestra, com o titulo “Como Começa a Vida”. Consultei dois ou três amigos brasileiros do Departamento de Saúde Publica, o Embaixador Americana e respondi “Sim”! Os slides foram exibidos no prédio da Exposição Americana que hoje é a Embaixada na Avenida Presidente Wilson, à uma audiência mista de homens e mulheres, que representavam vários círculos profissionais, de negócios e sociais, e a impressão foi muito favorável.
Três dias depois, na Rua Sete de setembro, eu fui detido por um médico amigo que havia apostado na impossibilidade e até em uma desestabilidade de nossa aventura educacional; ele pegou minha mão e disse: “Agora eu percebo o seu intento, mas nós os médicos não podemos fazer nada. Já para o senhor há a possibilidade de colocar em prática em sua missão e na ACM”. Logo vi que a ideia do projeto havia sido aceita, e que certas medidas educacionais e a publicidade foram aprovadas pela Junta Federal de Saúde. 
Poucos anos depois fui convidado a presidir uma reunião promovida pela ACM sobre um filme e palestra que combinavam aspectos dos dois assuntos acima mencionados. O apresentador seria um notável médico brasileiro o qual frequentemente me dizia que ele e seus colegas conheciam e acreditavam em medicina curativa, mas em relação as medidas preventivas criam ser somente para idealistas da fé puritana, porém em sua palestra falou com franqueza e deu conselhos científicos para cerca mil rapazes que enchiam o salão. Agora tinha se tornado um entusiasta advogado da castidade e da educação sexual. Tenho visto um notável despertar a este respeito neste quarto de século.
        Nos primeiros tempos da missão, eu falei sobre os vários males sociais e recebi uma contribuição anual de um engenheiro civil de sucesso. Ele e seus associados adquiriam riqueza como construtores e proprietários da formosa doca do café, em Santos. Através da criação da fundação Yraffee-Yuinle, uma das maiores instituições sociais existente no gênero, doaram os fundos para a construção, compra de equipamentos e manutenção de uma de clinica de tratamento de doenças venéreas. 
         Entre as atividades da missão, além dos cultos, era oferecida instrução religiosa, jardim de infância, educação primaria, aula de culinária, costura, datilografia, enfermagem, recreação, serviços médicos e dentários gratuitos, quadra para esportes e educação física, propiciando melhorias no ambiente material e moral. 
            Tivemos a alegria de ver muitos alunos convertidos, vidas reformadas, crianças e adultos seguindo em direção a uma vida intelectual moral e física de padrão mais alto, porém, não me parecia que os resultados, especialmente no caso das crianças, fossem adequados. Alguma coisa estava faltando, e então solicitei a minha filha que era professora, e suas companheiras, para investigarem a dieta das crianças. Com emoção ela relatou que, em geral, a dieta constava de café com pão pela manhã, pão, queijo e possivelmente uma banana ao meio dia, e a noite feijão preto, arroz e carne.
Constatei o espectro da má nutrição e planejei fazer algo em relação a esta carência. 
Por meio de comerciantes amigos consegui leite, farinha integral e açúcar. Obtive pratos e uma balança para aferir o peso das crianças. Após um exame e a pesagem executada pelo nosso médico, uma dieta especial foi colocada em prática. Muitas pessoas profetizavam maus resultados e declaravam que as crianças não comeriam o novo alimento, mas elas além de comeram, ainda pediam mais. Os resultados foram logo visíveis em suas faces e movimentos. Pedi a uma professora que fizesse um check-up nas notas obtidas nas provas e ela constatou um considerável progresso nas mesmas. 
Tornaram-se melhores crianças, mais obedientes à disciplina e mais dóceis ao serem dirigidas na recreação. O Diretor da Junta de Saúde Publica ao ouvir falar da experiência procurou saber mais a respeito, e eu o convidei para nos visitar. Após comer um prato de mingau de farinha integral com leite com as crianças, ele declarou ter achado muito bom. 
Hoje o cuidado com os dentes, a inspeção médica, os playgrounds e a alimentação das crianças estão se espalhando pelo Rio, como também em outras cidades no Brasil.
           Quando se celebrou em 1922 o centenário da independência do Brasil, se fez um retrospecto do primeiro século da historia nacional, e isto trouxe à luz, vividamente, as atuais condições onde ficou notória a necessidade de projetos que propiciassem um maior desenvolvimento. Uma sugestão foi a de um Congresso sobre o bem estar das crianças, o primeiro na historia do país. A comissão nomeada para comandar o programa convidou-me a preparar um documento sobre a educação física de crianças de idade pré-escolar. Este foi um novo tipo de trabalho missionário. Preparei o documento e o Congresso expressou apreciação pelos esforços e publicou o texto nos arquivos oficiais.
             Poucos anos depois foi realizado no gabinete do Presidente, sob a direção do Ministro da Saúde Publica um segundo Congresso de Bem-estar da Criança, e me pediram para preparar e apresentar um documento sobre “educação Sexual: quando e como Ensinar”. Este foi um assunto muito mais delicado e difícil, mas eu concordei e fiquei gratificado ao receber palavras de apreciação e aprovação do Congresso.
            A Junta Nacional de saúde Publica Brasileira começou em 1924 a abertura de clinicas higiênicas infantis para dar atenção especial a crianças pequenas e à suas mães, e como houve dificuldade em conseguir um prédio adequado para uma clínica perto do Instituto Central do Povo, eu propus para as autoridades médicas um acordo no qual eles usariam uma parte de nossa clinica. Após as autoridades responsáveis terem aceitado o acordo proposto, a clinica foi publicamente inaugurada no natal de 1925. Conforme o costume brasileiro houve uma cerimônia apropriada com vários discursos, e em minha fala referi sobre a feliz coincidência de inaugurarmos a clinica justamente no aniversario daquele que disse: “deixai vir a mim as criancinhas”. 
O jovem médico colocado na direção havia sido educado nos Estados Unidos e sua enfermeira assistente tinha estudado no colégio Granbery. Este trabalho em cooperação com as autoridades públicas têm prosperado por 13 anos e sua utilidade continua aumentando.
                        A lepra antiga e repugnante doença eram prevalentes em todas as regiões do Brasil. Frequentemente, em minhas viagens, via leproso pedindo esmolas pelas ruas e ostentando em seus corpos os mais avançados estágios da doença. Pouco ou praticamente nada era feito a respeito desta situação. A atitude comum de fatalismo evitava qualquer esforço. Os leprosos viviam com suas famílias, traziam crianças ao mundo e em geral se misturavam com a população no trabalho e nas ruas. Quando algumas mulheres jovens que tinham sido educadas em nossas escolas protestantes contraíram a doença, a situação foi trazida a nós, e resolvemos apelar para o sentimento publico. As autoridades, e alguns cidadãos importantes foram despertados a ponto de procurar separar crianças não infectadas dos pais leprosos, mas somente umas poucas vítimas foram segregadas. Alguns grupos isolados de mulheres se interessaram pelo bem-estar social e espiritual das crianças que haviam sido separadas dos leprosos, mas estes se constituíram em fracos começos e poucas diferenças fizeram pelo problema nacional.
Em uma Conferencia de Médicos e outras pessoas interessadas, preparada com a finalidade de aperfeiçoar uma já iniciada organização, e estender suas atividades, pediram-me para discorrer sobre o assunto de “Cooperação da Iniciativa Privada com autoridade Publica” em relação a lepra, e explicar o trabalho da Missão Americana para Leprosos. Este convite levou-me a um contato mais estreito com um grupo de notáveis cientistas, oficiais do governo e lideres sociais.
A Conferência mostrou o fato de que em várias partes do país, pequenos grupos de mulheres estavam se esforçando em ajudar os leprosos. Isto parecia oferecer oportunidade para uma organização mais ampla e ficou decidido instituir uma comissão federal para a troca de opiniões e sugestões, e desenvolver melhores métodos de trabalho. Fui honrado como membro da Junta de Conselheiros desta organização, desde o inicio. Ela cresceu em tamanho e influência e hoje tem representantes em todos os estados. O principal trabalho da comissão tem sido o estabelecimento de casas para as crianças não contaminadas pela lepra, embora também promova a criação de colônias de leprosos e hospitais para os pacientes. Estávamos sem fundos, porém assim que conseguimos despertar um sentimento social de ajuda, o Governo federal e Estadual tem financiado as operações. A comissão construiu três casas e 14 outras estão em construção enquanto escrevo esta linha.
     O oficial executivo da comissão é uma cristã protestante, Dona Eunice Weaver, a esposa brasileira de um missionário metodista americano Prof. Anderson Weaver. Trabalhando sem receber salário, ela tem viajado através do país e é agora honrada como notável autoridade leiga no problema da lepra. Fui nomeado representante brasileiro da Missão americana para os Leprosos e tenho apoiado ativamente quanto possível em vista de minhas numerosas responsabilidades. 
        D. Eunice tem visitado muitas partes do mundo, incluindo os Estados Unidos, para estudar o problema e ela foi à única mulher inscrita no programa do Congresso Mundial de Lepra, no Cairo, Egito em 1938.
        Apesar da estimativa de que haja inúmeros leprosos no Brasil internados nas colônias e hospitais estabelecidos pelo Governo Federal e de vários estados, pacientes separados recebendo tratamento adequado, e várias crianças nas casas instituídas por nossa comissão federal, até agora o problema mal foi tocado.
No geral há ainda vários leprosos se misturando com a população, muitos destes são registrados, mas uma escassa supervisão é executada. Também há milhares de leprosos desconhecidos não recenseados se misturando e infectando pessoas que lhes está próximo.
                    A Liga das Nações se interessou pelo esforço do Brasil na luta mundial contra a lepra e foram iniciadas negociações para estabelecer um laboratório de pesquisa especial no Rio. Um plano foi elaborado através da junção de forças do Comissário da Liga das nações, do Governo Brasileiro e de alguns filantropos brasileiros, e o mesmo foi assinado no Escritório Estrangeiro (Foregn Office) no Brasil.
 Fui um dos filantropos convidados a assinar o documento por motivo de meu interesse, e por ter sido um dos pioneiros na tentativa da resolução no problema. 
           Vim para o Brasil como um servo Dele, daquele que deu o comando “curai os leprosos”, e eu não podia ficar satisfeito enquanto não pudesse dizer a Ele da mesma forma como disseram os primeiros apóstolos:

                     ”OS LEPROSOS ESTÃO CURADOS"! 


Correção, transcrição e formatação por Fabio S. Faria.

http://1re.metodista.org.br/conteudo.xhtml?c=2118





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